. Os dias do meio .

. de tudo o que é maciço e permanente .

. de todas as letras que uso para escrever, escolho a primeira do teu nome .
. de todas as manhãs, as que cheiram a palha húmida .
. entre todas as vozes, distingo umas poucas .
. de todos os poemas, um soneto .
. das fotografias, guardo aquela em que estás de costas e que nem sabes que eu tirei .
. das músicas que me tocam, oiço aquela que ela canta de noite no parque .
. de todas as viagens trago o ar que respiro .
. de todas as plantas, cuido das minhas .
. dos momentos em que foi mesmo verdade, escolho aquele .
. de todas as vezes que te olhei nos olhos, não esqueço nenhuma .
. em todas as decisões, o livre arbítrio .
. de todas as temperaturas, as quentes .
. de todas as crianças, as que também são minhas .
. das comidas, a cozinha lenta .
. das dores, as que acabam .
. em tudo, o querer .
. de tudo o que é maciço e permanente .
. tudo o que aprendi com a minha mãe .
. em todas as falhas, o querer fazer bem .
. de todas as vezes em que perdi a razão, mas insisti, ainda me envergonho .
. de todas as entradas no mar, não vou escolher nenhuma .
. a vez em que me escolheste, fico com essa .
. os amigos que são a família .
. todas as caras e todos os nomes .
. tudo o que não quero ser tanto e me faz um homem melhor .
. a verdade como uma pele inteira com cicatrizes .

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. Porta .

No muro da auto-estrada que aponta para sul, há uma porta.

Passo pelo muro na estrada e vejo a porta fechada que separa o outro lado, onde crescem coisas.

Lembro-me de um livro que guardo entre livros, onde um homem vive numa cidade por cima do chão.

No chão que ele pisa a caminho do trabalho, nascem casas e pontes. Ninguém sabe o que está por baixo.

Ao homem que vive na cidade por cima do chão, não lhe chega a vida que tem.

Quando tudo parece acabar, ele usa uma faca e risca numa parede uma porta.

Três riscos e ela aparece. Ele atravessa-a. E não olha para trás.

Quero ser um homem melhor.

Sigo o coração sem vergonha.

Tomo decisões.

Sou um querido feroz.

Faço uma porta, mas não tem que acontecer nada.

Com a mesma mão atravesso-a.

Com a mesma mão acerto o passo.

Choro na auto-estrada.

A porta está aberta.

2013 09 09 - A porta

. Os dias do meio .

Recebi uma mensagem da minha mãe que dizia: Pai não está bem, pergunta por si. Dá para passar cá?
Eu estava longe, tinha pressa de o ver. Voltei para Lisboa sem pressa de chegar, sabia que faltava pouco.
Vim no banco de trás, em silêncio. Quando o meu pai adoeceu eu chorei todos os dias durante 2 anos.
Foi estranho viver acostumado ao choro. Parecia não ter fim.
Mas houve um dia em que não chorei. E a estranheza então foi essa: hoje eu não chorei.

A última vez que estive com o meu pai ele dormia.
Acordou por breves minutos, no torpor da morfina. Perguntou pelos meus dias, quis fumar.
Sentei-o e ajustei as almofadas. Segurei a cigarrilha e o cinzeiro.
Ele tragava devagar, deixava as frases a meio e adormecia. A cinza demorava entre os meus dedos, na ponta do fumo. Acordava e fumava, adormecia com a cigarrilha entre os lábios.
Fi-lo na ternura de uma tarde de Agosto. No silêncio de quem sabe o que vai acontecer, estávamos ali os dois, olhos nos olhos, a fumar uma cigarrilha.
Ele engasgou-se e começou a tossir. Endireitei-o e sentei-me na cama por trás dele, para que se encostasse a mim.
Abracei-o, a minha cara pousada no ombro, no pescoço. Cheirei-o.
O corpo frágil, o olhar suave. O meu pai indefeso e eu a parar de cair. O meu pai cheirava a bebé.
Ele adormeceu novamente e eu fiquei ali. Guardei-o e guardei-me, deixei-me ficar.
Este é o fim, é assim que acaba. E foi bom, e estava tudo ali.

* * *

Não é verdade que nos despedimos de quem se vai embora.
Nunca dizemos adeus, vivemos o presente enquanto ele existe, como se fosse para oferecer.
Os últimos dias são como os primeiros, como os do meio – estamos, somos, amamos. Não há despedidas.
Hoje conto 12 anos desde aquela tarde de Agosto.
Lembro-me de tudo.
Habituei-me a viver sem ele, mas não há despedidas.

(13 Agosto 2013)

2013 08 13 - Os últimos dias

. A vizinha .

A vizinha de cima é uma velha senhora.
A vizinha de cima é uma senhora velha.
Veio do campo para a cidade, teve filhos e teve netos. Passa muito tempo à janela. Pode ser vista logo pelas 7h da manhã. Vai falando com quem passa e conhece, atira pão seco aos pombos.
Tem sempre um lenço na cabeça e cáries nos dentes.
Durante anos teve plantas na varanda, que regava e adubava com espinhas de bacalhau, como fazia na horta lá na terra.
A vizinha de cima vive um bocadinho alheada.
A vizinha de cima cheira mal. A casa da vizinha cheira mal, e no Verão, as escadas do prédio cheiram mal por causa da casa da vizinha.
Já discuti com ela várias vezes por causa do pão que atira aos pombos e os atrai para a minha janela, por causa das espinhas de bacalhau e ossos de frango que aparecem na minha varanda.
Um dia perdi as estribeiras e gritei com ela. Disse-lhe o que toda a gente pensa mas ninguém diz: a vizinha é porca e cheira mal. Ainda assim, a vizinha tem saudades minhas quando eu não estou. Ela gosta de me ver regar as plantas. A varanda da vizinha já não tem plantas. A vizinha ainda atira pão aos pombos, mas agora com mais cuidado.Todos os meses a família reúne em casa da vizinha para jantar. Falam alto como fazem as famílias e festejam aniversários. Descem as escadas em conversa animada à 1h da manhã, como se fosse cedo. Saem felizes. Sempre me surpreendeu como eles aguentam estar ali tantas horas, com aquele cheiro. E jantam. Mas estão e voltam.
A família da velha senhora que cheira mal e vive no andar de cima, gosta muito da sua avó. E eu gosto disso. Se ela não cheirasse tão mal eu adoptava-a, como fiz com o Sr. Ventura, que vivia no rés-do-chão do 25. Ele passava horas a apanhar o sol de Inverno junto à minha mota e conversávamos todos os dias. Um dia deixámos de o ver. Adoeceu e começou a sair muito pouco. Quando apareceu estava mais magro e frágil. Depois nunca mais.

O estendal das traseiras da vizinha tem uma saia que vive lá.
Quando me mudei para esta casa, a saia já lá estava, velha e puída. Esfarrapada como a vela de um navio fantasma, cortina em casa abandonada, queimada pelo tempo. A saia da vizinha mora ali há mais de 8 anos. Eu tenho para mim que o plástico que está debaixo da saia é o saco onde ela guarda o ouro quando sai de casa – um truque antigo para despistar piratas.
A saia da vizinha tornou-se uma lenda, uma história para contar. Todos olham para cima e estremecem ao vê-la, imponente e ameaçadora como a vela de um galeão pirata, navegando amaldiçoada no estendal das traseiras.

Ontem olhei para cima e vi a saia. E tive vontade de perguntar à vizinha porque é que ela a tem ali pendurada há tantos anos. Hoje ao estender a roupa, vejo a saia da vizinha caída no estendal do andar abaixo do meu. Estremeci.

Temo pela vida da minha vizinha.

(26 Julho 2013)

2013 07 26 - A Vizinha

. My home is the sea .

Vi os meus pés enterrados na mesma areia que os teus.
Vi gente a correr em palco, atrás de uma borboleta que não estava lá – alguém olhava para trás, à procura daquilo que já não é.
Vi um bebé cair na água sem se afogar porque aprendeu a boiar.
Vi um rapaz de 9 anos empurrar um carrinho de bonecas e entrar apressado no prédio, tentando esconder de mim o xixi que não conseguia conter e lhe saía através da ganga das calças.
Vi as costas musculosas de um homem de pele muito branca – pronto para morrer um dia.
Ouvi-me cantar na praia sem medo.
Senti o calor de um raio a bater-me na cara.
Acordei de um sonho que metia um copo leite, duas cobras azuis e um segredo.
Vi o meu pai morrer em casa, como devia ser sempre.
Vi o meu coração querer voltar ao mar, onde pertence.

. Nascer e morrer em casa .
. Voltar ao mar em cinzas sem morrer afogado .
. (My home is the sea, my home is the sea) .
. forte . frágil . à vez .

8 de maio 2013

2013 05 08 - My home is the sea

. Veronica .

Ela está a olhar para mim e dói-me o ombro. Vejo pela janela uma árvore do outro lado do pátio. Sinto um dos braços adormecer e penso no que não devo. Respiro fundo e estou de volta à pequena sala com vista para o mar. Redistribuo o meu peso e descontraio o centro de gravidade. Ninguém se apercebe e as minhas pernas estão firmes – aguentam mais 15 minutos. Procuro outro foco – estão todos a olhar para mim. Atrás de mim uma janela e a Serra. Em frente à janela estou eu. Aos meus pés, o sol desenha uma coluna de luz e sombra que vejo transformar-se. Estão todos a olhar para mim. A sala está quente. Junto ao chão, uma fina camada de ar frio que só eu sinto. Estou nu e oiço o tronco ardido e preguiçoso resvalar sobre as cinzas na salamandra. Penso no tempo que não passa. Penso nas outras vezes em que pensei no tempo que não passava. O frio, as dores, o tédio e as vezes que foram tão boas que me libertaram e me fizeram avançar sem sair do lugar. A sala electrizada e aquilo a acontecer. Então pensei na Veronica. Ela estava a olhar para mim e eu estava mais exposto que nunca – o que ela via os outros não viam. O que eu fazia era só para ela. Ela estava deitada no chão, a desenhar-me num lençol de papel e não me largava. Aos olhos dela, todo eu sou forte e frágil como na vida real. Ela vê-me. Uma vez encontrei-a na rua e pedi-lhe que me desse um desenho. Ela tímida, deu-me o número do telefone e eu não liguei, deixei passar, com a certeza que a voltaria a ver. Deixei passar muitas vezes. Uns anos mais tarde, uma rapariga reconheceu-me num bar e falou daquelas vezes em que a sala ficou eléctrica – como aquilo nos tinha marcado a todos. Perguntei-lhe pela Veronica, disse-lhe que desde então as minhas poses são para ela. Ela fechou a cara com ternura. A Veronica não aguentou mais e matou-se. Eu sou daqueles que chora quando a Veronica morre.

(4 Março 2013)

2013 03 04 - Veronica

. A jarra .

No Verão passado, uma amiga passou pelo Porto e trouxe-me um presente: uma jarra de cerâmica, verde como o escuro das águas mais fundas.
Pesada e espessa, ela torce o pescoço das seis faces que elegantemente dão graça à minha sala.

No Outono a minha amiga fez-me querer festejar o meu aniversário. Ela queria melancias cheias de tequilla, eu queria um cinto de ferramentas, um beijo mais complicado, marinheiros a dançar no salão de baile e os amigos a aquecerem-me a casa – as coisas simples.

Fizemos a festa. Eu disse que eu mesmo iria comprar as flores. Dei uso a cada jarra e coloquei uma a uma no seu lugar. A festa, quase perfeita.
Nas semanas que se seguiram, estive do outro lado do mar, a apaixonar-me por uma cidade que eu não sabia que também era minha. Quando voltei, algumas das flores ainda estavam intactas – a florista disse que durariam 3 semanas. Foi o tempo que demorei.

De todas as jarras a água saiu clara, menos da jarra verde.
Pesada e espessa e de pescoço torcido, a jarra de cerâmica verde como o fundo das águas, estava coberta de gotas castanhas. Na minha ausência ela segregou uma substância melosa de cheiro adocicado. Uma fermentação alcoólica e misteriosa que dá vida à minha jarra de cor escura.
A água lá dentro a empurrar o que é doce cá para fora.

Sempre que a uso, ela devolve-me gotas de melaço castanho. Gosto de acreditar que vive um amor dentro dela, que respira e transpira quando eu não estou na mesma sala, e destila o carinho que a minha amiga lhe meteu dentro quando me a ofereceu. Não foi preciso o cinto de ferramentas nem pendurar-me num poste – bastou meter flores na jarra. O beijo chegou pelo natal.

(13 Janeiro 2013)

2013 01 13 - A Jarra

. Ziggy Stardust .

◆ Setembro ◆
A caminho do Meco com a Marta ela diz-me que quase não conhece a música da Joni Mitchel. Eu ato-a a um cacto no deserto, rasgo-lhe as roupas e afirmo sereno: se eu tivesse de escolher uma única voz feminina para ouvir até ao fim da vida, seria ela.
E se tivesses de escolher uma voz masculina?
Não sei se consigo.
Seguimos pinhal adentro. Passo a vida em revista na minha cabeça, a ter de fazer uma escolha aparentemente impossível.
Ai Marta não consigo! menti eu sem querer.
Alguns metros por segundo depois respondi: David Bowie.
Se eu tivesse de escolher um, seria ele. Acompanha-me desde sempre, ensinou-me a expandir os meus limites. Quando flutuo à superfície ou mergulho no mais escuro dos fundos, ele está lá. Ele é o homem, escolho o Bowie.
Bem escolhido! sorri a Marta.

◆ Dezembro ◆
Na segunda-feira fiquei com o bebé enquanto os pais foram fazer as últimas compras. Depois de um passeio pelo bairro a apontar para as plantas e para as luzinhas nas montras, voltámos para casa e ponho música a tocar. Escolhi o Bowie e comecei a dançar com o Eduardo no colo. Ele começou a sorrir e a dançar comigo – ele sorria e eu cantava. Cantei uma, cantei duas, dançámos 5 e ele não deu sinais de se fartar. Cantei o “Changes” e o espaço na garganta apertou-se. Eu ali no meio da sala, a dançar com o bebé da minha irmã no colo como se segurasse o meu passado e o meu futuro. Eu a cantar-lhe sobre as coisas que nos apertam e nos empurram e nos fazem crescer, eu à flor da pele a trocar calor com este menino que rasga sorrisos quando me vê. Eu, Pietro homem, em tempos adolescente imortal, todo eu imortal de novo com o amor nos braços – three… two… one… liftoff…
Naquele instante estou a passar-lhe tudo o que sei, estou a aprender tudo com ele. Sinto-me a flutuar, consciente do tamanho das coisas, grandes e pequenas. Ensino-o a dançar e sinto-me mais homem que ontem. Quando rodopiei ao som do Ziggy Stardust ele abriu os braços e inclinou a cabeça para trás como uma estrela de glam-rock. Repeti o gesto e ele fez o mesmo! Tenho este menino nos braços e sinto-me cheio. Vou a mil e cristalizo esta dança para sempre. Este menino com 10 meses no meu colo é o meu sobrinho a curtir o Bowie e fui eu que dancei com ele.
. Planet earth is blue and there’s nothing I can do .

(30 Dezembro 2012)

2012 12 24 - Ziggy Stardust

. Existir vírgula ponto .

Estava a fazer café de manhã e pensei nos lugares onde já estive. Sítios que estão longe, onde a minha realidade foi diferente e eu me senti mais eu do que o costume. Alguns eram feios, outros magníficos, outros não deixaram memória. Nesses lugares eu era outro e o meu estado de graça também.
Fico siderado quando penso que todos esses lugares existem em simultâneo, que estão lá, mesmo quando eu não estou. Quanto de mim ficou para trás – as unhas que cortei, a pele morta, os subprodutos da minha digestão – e quanto de cada lugar ficou preso nos meus pulmões, nas células do meu corpo, nos recantos do meu intestino, onde um berlinde pode viver 20 anos sem que eu me dê conta?

Paro uns segundos com a colher enterrada no café moído – estou a fazer uma lista mental de sítios incríveis ou simplesmente banais. Alguns que nunca mais vou visitar, outros que não quero voltar a ver, mas por onde passei. A esquina em Bangalore onde bebi um caldo de cana num copo comunitário, as escadas do centro comercial do cacém, uma rua a caminho de casa em Alfama, o caminho de cabras de Estoi, o alpendre da palafita onde morei 1 semana na selva do Laos, a Coldharbour Lane em Londres, uma açoteia em Marrocos, o quarto do Ibis de beira-de-estrada nos subúrbios de Paris ou o Zé sapateiro do antigo prédio da minha avó.

Recordo uma tira da Mafalda em que o Felipe imaginava um mundo sem distâncias – ideia aterrorizadora que o faz desmaiar. Eu imagino os sítios sem mim e parecem-me mentira. O mundo só existe quando eu estou lá. A famosa árvore só faz barulho ao cair na floresta se eu estiver lá. A estrada que conduzo à noite só se materializa à medida que avanço e os faróis afagam o vazio. Os brinquedos só ganham vida quando eu não estou. Estas são verdades tão absolutas quanto um Amén ou Insha’Allah.

Não há provas – até hoje não há uma única prova – de que os Deuses existem. Está tudo nos olhos de quem vê, no coração de quem sente, na cabeça de quem imagina, acredita e diz. São redes de suporte que se criam para ser mais fácil existir sem um sentido predestinado. É mais fácil acreditar num Deus do que aceitar que a vida não tem mais sentido que ela própria. Existir vírgula ponto. É mais fácil acreditar num impossível escrito por homens há milhares de anos do que na realidade que se cria todos os dias. É mais fácil dizer feliz natal do que dizer eu não acredito.
Eu não tenho nada contra as fantasias, mas prefiro ser eu a inventar as minhas. Eu não acredito.

(21 Dezembro 2012)

2012 12 21 - Existir vírgula ponto

. Partículas de pó .

Lembro-me de ser pequeno e olhar as partículas de pó apanhadas em pleno ar pelo sol que entrava no meu quarto. Ficava a olhar para elas, a pensar como eram tão pequenas e leves que não caíam, tão leves que bastava eu mexer a mão e elas logo reviravam no ar do meu quarto. Conforme lhes batia o sol, brilhavam como estrelas e eu era um gigante. Às vezes fixava uma delas e seguia-a até me distrair com outra coisa qualquer. Nesses momentos de quase nada eu dizia a mim mesmo: tens de te lembrar disto daqui a muitos anos. Este preciso momento em que estás a ver isto, a pensar isto e a dizer a ti mesmo: tens de te lembrar disto daqui a muitos anos.

Quando eu era pequeno gostava de encostar o ouvido na barriga do meu pai e ouvi-lo falar. Ouvia a voz dele cá fora por uma orelha, e pela outra, a voz abafada e interior do meu pai. Pelo meio escutava o respirar e os pequenos sons internos que um corpo faz. Aquilo confortava-me. Era como estar debaixo de água dentro de casa, era uma quase canção de embalar sem melodia, um colo sem que me pegassem. Eram coisas que eu não partilhava com ninguém, tudo se passava cá dentro. E eu sabia que ia ser sempre assim. O infinitamente grande e o infinitamente pequeno não se traduzem em voz alta.

(17 Dezembro 2012)

2012 12 16 - Partículas no ar

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