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by Os dias do meio

No dia 24 de Junho de 1983 eu saí de casa sem calças.
Era o aniversário de um primo, numa daquelas tardes em que depois do duche já começas a transpirar. Vesti-me para ir à festa: uma t-shirt que ficava grande demais, chegava a meio das coxas. Dizia Hasselblad no peito e nas costas, e na manga esquerda, o desenho de uma máquina fotográfica. Bonita e elegante, do lettering ao desenho da máquina, aquela t-shirt era especial. E a cor. Aquela cor. Nunca a vestira antes por ser tão grande. Olhei-me no espelho e decidi: é hoje.
Usei-a como um vestido de Verão, com um cinto a rematar. Uma t-shirt azul-céu intenso e um cinto fininho de verniz vermelho.
Saí para a rua e apanhei um táxi. Sentei-me no banco de trás com a sensação que tinha vestido uma personagem que também era eu. Não o fiz a pensar que estava a vestir-me como uma rapariga. Fi-lo porque que estava a combinar 2 elementos de uma maneira diferente do que costumava fazer e porque achava que ficava estupidamente bem assim.
Já em frente ao prédio onde viviam os meus primos, pensei: é agora. E entrei.
Dos amigos do meu primo vieram alguns olhares a estranhar o que eu trazia vestido, mas rapidamente me fundi na brincadeira e, para mim, a festa estava começada.
Anos mais tarde comecei a inventar mais. Roupa do avesso, a minha colecção de camisas brancas rasgadas que tanto afligia a minha mãe – Oh filho, não tinhas mais nada para vestir? – as camisolas de pijama, as penas nos sapatos. Mais tarde, as saias e a colecção de casacos, as jóias e a maquilhagem, os acessórios, os coletes e lenços. Tudo servia para me recriar, mas o primeiro cross-dressing foi quando ainda tinha um só dígito – 9.
A fauna da Lisboa por onde eu me movia e entre as pessoas da minha idade, não era assim tão variada. A diferença era apontada com desdém e agrados vindos das obras, ou mesmo a ocasional cuspidela vinda de um autocarro que passava. Não era um ambiente pacífico, mas eu saía de casa reinventado e fazia-me. A cada vez o meu universo expandia, sem medo e sem vergonha, a tentar perceber se havia um limite, uma fronteira. E não havia, porque eu olhava para mais longe. Pelo meio, o Bowie e as fotografias nas capas dos discos, as letras das músicas que me apresentavam o grande camaleão, um homem que se reinventava à medida que avançava. Aquilo cantava o que eu era aos 16 anos.
Ainda guardo o osso com que prendia o moicano azul que usava atado num puxo no topo da cabeça. Não me esqueço da noite em que apanhei o 42 à porta de casa, a cara incrédula dos passageiros quando avancei pelo corredor para me sentar lá atrás. Comentavam baixinho, apontavam com o queixo. Quando me levantei para sair, aquela meia dúzia de pessoas tinha o riso preso. Olhei para todos e sorri. Eles estalaram a rir e eu ri com eles. Riam por achar ridículo ou surpreendente, mas para mim foi uma estranha comunhão. Aquele riso afirmava-me como parte da cidade. O riso partilhado que, muitas vezes, é o início de algo maior.
O prazer de me identificar com o que visto cresceu comigo e faço-o todos os dias. Deixou de ser uma projecção do que eu queria ser para reflectir quem sou. Deixei para trás a provocação e o confronto e abracei a subtileza dos detalhes. Um amigo riu quando lhe disse que sou discreto a vestir-me. Respondi-lhe que já fui bem mais exuberante. Depois contei-lhe da t-shirt azul e do cinto vermelho.

hasselblad

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