. Os dias do meio .

. to infinity and beyond .

Esta semana faz 40 anos que foram lançadas as sondas espaciais Voyager, as naves mais incríveis de sempre, o expoente máximo do engenho e do romantismo. Com elas, o bater do nosso coração forte, a nossa música, as nossas vozes viajam no espaço. A última fotografia que a Voyager tirou foi a do pálido ponto azul – o ponto azul onde tudo acontece, onde viveram todas as pessoas que existiram, que amaram, que olharam para o céu com espanto. Foi no dia dos namorados, em 1990.
Quando a Terra desaparecer, as Voyager vão continuar a sua viagem. Ontem, 25 de agosto, fez 5 anos que uma delas deixou o sistema solar – um pequeno silêncio seguido de um assobio, a sonda a dizer-nos que está fora da bolha onde sopram os ventos solares.
Hoje ao sair de casa reparei no recorte das árvores no céu azul turquesa e numa nuvem cheia de qualquer coisa que não sei explicar. Ao mesmo tempo, a canção que ouvia, disse: et alors, que restera-t-il de nous? e emocionei-me. Com o céu azul e uma nuvem branca.
Que bom não ter de esperar ser um Palomar para me espantar com o que vejo. Quem me dera ser inteiro como a água, como o mar como está hoje: não uma massa, mas cheio de textura e especificidade a cada instante.

. 26 agosto 2017 .

 

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. pl pl pl .

 

Canto o meu corpo sozinho ao sol. É o que isto é, um momento sozinho.
Canto o chão bruto e inexorável do caminho até chegar a casa. Canto o barco para a outra margem, as linhas do comboio. Canto o terreno dos feitiços e a sombra que espera sempre por si, a árvore da salvação, a pedra da rolha. Canto a água da chuva na cisterna e a arruda na última curva. Canto as boas noites, as bocas de lobo, canto o sol que almareia. Canto as figueiras e farrobeiras, canto a água da fonte no garrafão, os limões do Florêncio, o pão dos Madeirinhas. Canto as pinhas da venda da Olímpia, canto o miso e o mingau. Canto as horas todas, canto uma história, canto o inverno e o verão. Danço o nosso ontem, levo tudo à frente, urgente. Danço para não me esquecer da vontade de ter vontade, urgente.

♦  E se bem te lembras quando andávamos os dois a deambular por aí sem procurar nada, tantas coisas nos aconteciam e tudo corria como um rio   ♦

Agora fica tudo mais quieto, o silêncio. Fica o som dos meus pés no chão da cozinha, a ladainha do pequeno almoço enquanto mastigo, o zumbido agudo e sempre presente nos ouvidos, o silêncio. Apenas a quietude imensa, surda, uma imobilidade generosa e febril, sem distração. Esta cartografia tem um vazio, todo ele presença irascível, anarca-genética e inteira. Uma força imensa, destravada, incondicional e sem critério – como uma fé. Que seria de mim sem a parte que vem dela, neste momento onde tudo cabe, que tudo consome e nunca se esgota – nesta pena resoluta, nesta singularidade absoluta.

 

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. raio negro .

trovões são bons sons que me confortam.
sou abraçado quando o céu estremece. protegido, até.
o som de penedos rasgados, montanhas derrocadas
a destruição invisível do que não tem forma
um colo no silêncio que antecipa o estrondo.
fico entregue à luz e ao som, encontro refúgio na meteorologia feroz.
sempre que posso, observo a tempestade.
⚡︎
a minha irmã tem medo, já teve ou já não sei.
por isso penso nela quando troveja. ligo-lhe.
da última vez ela descartou o desconforto
que as trovoadas sempre lhe trouxeram.
talvez eu já não tenha a certeza,
mas gosto de pensar nela quando oiço trovões.
assim é que está certo.
⚡︎
oiço a trovoada e lembro-me que sou apenas eu,
despido no capim comprido
descalço e inteiro, molhado pela chuva.
perante o trovão sou um minúsculo enorme
imortal perecível, um gigante impossível.
uma vez senti o calor de um relâmpago no rosto
foi o mais próximo que estive de um raio sem me apaixonar.

2016 04 15 trovoada© margarida

. pálido azul .

Somos um pálido ponto azul, não é? Já lá vamos.
Quando os anos cabiam em duas mãos e a televisão era finalmente a cores, as missões espaciais eram momentos de excitação. Ali estava um foguetão enorme e a expectativa dos lançamentos e aterragens do Vaivém espacial. O auge da tecnologia, a derradeira fronteira, a grande evasão. O Vaivém era a nave que viajava no Espaço e aterrava na Terra, coberto por placas de cerâmica que suportavam as altas temperaturas da fricção provocada pela reentrada na atmosfera… eu quase parava de respirar. Numa aterragem assistida em direto, mal o Vaivém tocou no chão eu cortei o silêncio da sala e disse: fantástico! Segundos depois, o locutor repete: fantástico! E era.
As viagens espaciais eram o expoente máximo do sonho. Há fascínio maior do que a terra vista lá de cima onde as planícies não têm fim? Do que ver o pontinho azul que a Voyager 1 nos mostrou ou saber que aquela sonda irá viajar até aos limites do nosso sistema, enviar-nos fotografias de planetas tremendamente distantes e continuar a explorar o espaço até perder a autonomia? Naquela altura, com os anos contados na segunda mão, essa longevidade não era palpável. Trinta e nove anos depois do lançamento das Voyager, ainda não é. Elas continuam a sua missão e já se encontram fora do sistema solar, no espaço interestelar. Estima-se que até 2025/30 irão continuar a enviar leituras, altura em que deixarão de ter energia para acionar os seus instrumentos. Mas não vão deixar de viajar pelo espaço a uma velocidade incrível, levando consigo os míticos discos dourados com sons e imagens da Terra – tudo com tecnologia dos meados dos anos 70 e uma capacidade de memória ridícula para os dias de hoje. fantástico .
A exploração espacial e o Cosmos do Carl Sagan andavam de mãos dadas com a fantasia do Star Wars, a distopia Cylónica da Galáctica e as orelhas bicudas do Mr. Spock. O meu kispo vermelho era um fato espacial alienígena, eu viajava na Millennium Falcon, ouvia a voz do R2 na bomba de ar da minha bicicleta e queria visitar o covil do Jabba. Fascinava com as naves do Space 1999 – as Eagles – e até via o Buck Rogers (péssimo, eu sei), mas o regresso a casa era sempre no Space Shuttle, o nosso Vaivém. Era lindo, era branco e era real.
Um dia, e depois de adiamentos sucessivos devido ao mau tempo, vimos o impensável: o Challenger explodiu durante o lançamento com 7 astronautas a bordo. O desastre tornou-se maior pela presença da professora que ia dar uma aula a partir do espaço para as crianças na Terra. Parou tudo.
O acesso ao Espaço não eram favas contadas.
Durante 3 anos a NASA suspendeu as missões e o Hubble teve de esperar por 1990. Depois de lançado, descobriu-se que era míope devido a um defeito num espelho – o Hubble precisava de óculos. Corrigido o erro, chegaram-nos imagens magníficas da formação de estrelas.
Trinta anos depois do Challenger, quase quarenta anos desde o lançamento das manas Voyager e do lançamento do Star Wars, voltamos a olhar para cima. Em 2013, o astronauta Chris Hadfield cantou o Space Oddity na Estação Espacial Internacional, dando-lhe o cenário mais que perfeito. Em 2015, a NASA lança o conteúdos dos discos dourados no SoundCloud e voltámos a voar a bordo da Millennium Falcon. Em 2016, o mundo estremeceu com a partida do homem que caiu na Terra, o homem das estrelas que nos arrebatou a mente porque sabia que valia a pena. Olhamos para cima para confirmar que foi bom perdermo-nos e usarmo-nos de tudo o que nos trouxe, que só nos resta dançar no pálido ponto azul onde tudo acontece – azul como o olho desse homem. 
E disse o Sagan: Consideremos de novo esse ponto. É aqui, é a nossa casa, somos nós.

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. volto a ser quem não era .

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Nesta fotografia tenho 17 anos. Ou 18, não sei bem.
Era noite, fim de verão e eu tinha acabado de voltar do Algarve, do cerro onde estivera a apanhar alfarroba com a minha tia Ofélia. Trabalhava das 9 às 6, a varejar árvores, curvado a apanhar alfarroba do chão, a ensacar cesto após cesto. No calor de agosto, enquanto todos estavam na praia, as minhas férias foram a viver no campo, trabalhar na apanha, receber à sexta feira, comprar comida para a semana e repetir o ciclo 5 vezes. Quando voltei, cheguei assim: a pele morena, os olhos doces, crianço por fora e enorme por dentro. Na altura não me dei conta, mas trocar o grupo de pseudo-amigos por aquilo fez toda a diferença. Podia ter sido um verão adolescente, mas foi um verão charneira. Aprendi a racionar água, alombei tudo às costas por caminhos de cabras e quase perdi um olho quando uma alfarroba caiu a pique e aterrou na minha córnea. Conheci 2 homens que perderam um olho assim:
O Vitorino de Estoi, que emigrou para a Argentina nos anos 70/80. Ele trabalhou muito, um dia ganhou a lotaria e comprou um camião. Ele não sabia conduzir, mas arrancou estrada fora. Como não sabia travar, só parou quando acabou a gasolina. E o Toy, que tinha uma banca de peixe no mercado de Olhão e vendia ganza nas horas vagas. A minha visão ficou turva durante uns dias, mas fiquei bem.
Trabalhei na apanha com a Evangelina, a Elvira, o Analídio e o Zé. O Analídio e a Elvira eram um casal e eram os patrões. Ela era muito gorda, falava depressa e tinha um cão mínimo chamado Sassá; a ‘Vangelina tinha uma Casal Boss, estava sempre a meter sexo nas conversas e queria levar-me para trás de uma moita para eu me trompicar com ela; o Analídio era um homem franzino e seco que falava arrastado e tossia uma mistura de riso com o cigarro apagado no canto da boca e o Zé era um pachola de poucas falas. Na campanha da alfarroba, os homens varejavam e as mulheres apanhavam. Eu fazia as duas coisas.
Também conheci a Maria Zorra, uma velha rija com cataratas nos olhos, que vivia na encosta do cerro. Era mãe do Analídio. Um dia a minha tia perguntou-lhe: Ó Maria, afinal quantos anos é que tu tens?
A Maria gritou para o marido Zé – a quem também faltava um olho, portanto afinal conheci 3: Ó Zé, quantos anos é que eu tenho? E o Zé respondeu: 30.
Trinta anos, Ofélia. Os anos que uma pessoa vive.
Nesta fotografia estou na cozinha a olhar para alguém, na noite em que voltei do cerro. Por cima da cabeça, um saco cheio de louros. Hoje olho para a fotografia. Vejo como a minha cara entretanto mudou, vejo que eu afinal era bonito e não sabia, que ficou tanta coisa definida naquele verão.

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Esta outra tem escrito por trás: Faro, Dezembro 2001. Eu tinha 27.
Nesse ano trabalhei com a Marília em dois ateliers para crianças. Este chamava-se Mostra-me o Teu Umbigo. Partindo do corpo e da noção de joia e de adorno, as crianças criavam, em pares, joias para o corpo do outro com fotografias. O mote era a transformação do corpo. Andámos por todo o país, uma semana em cada lugar.
Aqui a minha cara já tinha mudado. Tenho um anel de prata, um brinco no nariz, um piercing na língua, um anel no dedo do pé, uma coroa na cabeça e um anel para dois dedos. Estou a sorrir para a câmara, a tentar replicar a cara dos miúdos quando eram fotografados. O que me fascina nesta fotografia é precisamente esse ar de inocência. Porque 2001 foi o ano em que a perdi a golpes largos. Naquela altura disse muitas vezes que me a tinham tirado, mas entretanto percebi que é mesmo assim, vai-se. Nesta fotografia ainda sou um bocadinho imortal.
Aquele meu olhar não dá descanso aos meus olhos. Fixa-me ao longe e sorri-me. Eu estava longe de estar feliz, mas estava. Quando fiz esta fotografia, estava. No dia seguinte casaram dois amigos e fui padrinho pela primeira vez. Era tudo agridoce.
Olho para as duas fotografias e vejo princípios e fins. Nas duas pareço-me comigo.

. ♥ .

Não caímos, somos empurrados. Temos medo e reinventamo-nos sem nos dar conta – à mesa, no carro, lá fora, a olhar para a lareira ou com os pés dentro de água. E somos corajosos, porque ninguém nos ensina a lidar com aquilo. Cada caso é um caso, como no cancro. Naqueles meses a casa encheu-se de gente que chegava e partia, sempre uma festa, sempre a chuva e o vento e o adormecer a olhar o fogo. Depois, foi o Verão™ que definiu muito do que sou hoje, um desassossego diferente, que fez com que eu quisesse ser um homem melhor, que me empurrou para um sítio que eu não sabia que existia.
Este ano, com o aproximar da data, estou mais atento às histórias que tocam a minha – mentira, estou sempre atento – e ouvi alguém dizer isto:

– There is a club – the Dead Dad’s Club – and you can’t be in it until you’re in it.
You can try to understand, you can sympathize, but until you feel that loss…
My dad died when I was 9. George, I’m really sorry you had to join the club.

– I…  I don’t know how to exist in a world where my dad doesn’t…

– Yeah, that never really changes.

Não deixa de ser estranho sentir saudades daquela altura, mas sinto. Por ter sido tudo tão verdade, por ter sido um período estrutural para onde fui empurrado, onde só contava o que era mesmo importante. A partir daí fiz escolhas e tomei decisões. Também me deixo distrair com coisas sem importância e levanto problemas onde não é necessário, mas volto sempre a esse momento de verdade, onde só são importantes as pessoas que eu amo. Tudo o resto são distracções.
Aos que já cá estavam, aos que chegaram depois, quero-vos tanto e muito, sempre.

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. obrigada meu senhor boa sorte minha senhora .

ela abordou-me numa esquina, disse alguém me ajude que estou desesperada eu disse diga-me, ela disse é um cavalheiro, não é? eu disse sou. ela tinha uma catarata num olho e só via vultos. disse-me estou desesperada, nunca pensei chegar a isto, o dono da residencial onde agora vivo ameaça meter-me fora e eu sem dinheiro. falava-me em voz alta, os dois parados numa esquina de uma grande avenida, gente a passar. nunca pensei chegar a isto sou licenciada em letras e filosofia e agora estou a pedir ajuda no meio da rua. a minha carteira a abrir, a minha mão a estender-lhe os dez euros que tinha. é o que tenho, espero que ajude. muito obrigado disse ela em voz alta, foi jesus foi jesus, não minha senhora foi a senhora que se chegou à frente e pediu ajuda e fui eu que parei para a ouvir e ajudei, não foi jesus, fomos nós os dois. mas foi jesus quem o enviou para me ajudar, que não, insisti, fomos nós os dois, jesus não é para aqui chamado. sou formada em letras e filosofia, repetia ela num mantra desesperado, a voz aflita a subir-lhe pelo pescoço enrugado, aquele olho que me olhava sem me ver e guardava a lua lá dentro, o cabelo muito branco, ela muito baixa, o olhar vago a lançar um pedido como uma rede para o ar à sua volta. chega uma pessoa a isto, nunca pensei. boa sorte desejei eu quando me despedi e lhe larguei as mãos que estavam agarradas às minhas desde que lhe passei o dinheiro que tinha. obrigada meu senhor boa sorte minha senhora e atravessei a rua, gente a passar gente parada a ouvir a olhar para mim a olhar para ela. e senti-me mal, nada de me sentir bem por ter ajudado. segui pelo passeio a sentir-me mal pelo meu gesto inconsequente. ela já não é ela como se conhecia até aqui. posso ser eu daqui a trinta anos. pensei: eu tenho amigas formadas em filosofia, eu não sou formado em coisa nenhuma. pensei: o nosso futuro também pode desaguar na esquina de uma grande avenida a dizer alto está aí alguém? a um cavalheiro que passa. e se esse cavalheiro parar para me ouvir e ajudar, que se sinta melhor consigo mesmo no silencio de quem ajuda quem não conhece. que ele se sinta bem porque eu não fui capaz.

2014 04 19 as senhoras cegas falam comigo

. no banco de trás .

Era um som característico e inimitável. Víamos da varanda do 4º andar o carro afastar-se, o meu pai com o braço de fora a acenar e aquele ronco metálico a ressoar contra o muro da Casa Pia – o eco do ricochete dentro da panela de escape do Volkswagen azul do meu pai. Eram os poucos minutos diários em que o víamos. Todas as manhãs éramos 3 a entrar no quarto dele a dar-lhe um beijo, antes de ir para a escola. Ainda no corredor, chamávamo-nos, as minhas irmãs e eu, como se estivéssemos num teatro, prontos para entrar em cena. Sussurrávamos e esperávamos pela deixa de entrada no corredor preto do tecto ao chão – como num teatro. Entrávamos em fila indiana e contornávamos a cama gigante para o acordar com 3 beijos. Se voltássemos a casa à hora do almoço, cruzaríamos com ele antes que saísse por volta das 14h. Minutos contados e já o meu pai ia trabalhar tarde e noite. Quando éramos mais pequenos, víamos da varanda do 4º andar o carro a afastar-se e o meu pai a acenar. Anos mais tarde, já adolescentes, vínhamos à varanda quando o carro chegava. O meu pai nunca deixou que recebêssemos amigos em casa, por isso a transgressão fazia-se convidada e todos os dias os metíamos lá em casa. No silêncio da noite, ouvíamos o carocha a aproximar-se, a porta a bater. Todo aquele carro era de sons fortes. O pai subia pelo elevador e os amigos desciam pelas escadas.

Ele comprou o carro quando eu nasci, alguns dias depois. Lembro-me de sonhar que o conduzia, lembro-me do cheiro dos bancos no calor do Verão, quando íamos para o Algarve pela estrada nacional, de perguntarmos pouco antes de chegar a Setúbal se faltava muito, de brincar com as minhas irmãs pelo caminho e de achar que o céu do Algarve era mais azul que o de Lisboa – e era. A minha mãe até tricotou um pullover que eu usava cheio de orgulho. No peito o símbolo, nas costas a matrícula. Um dia, eu tirei a carta e o carocha passou a ser meu e da minha irmã. A direção rija e todo o carisma daquele Volkswagen azul eléctrico estavam agora nas minhas mãos – o volante pequeno de corrida tornava-o ainda mais difícil de conduzir. Aquilo estava para além do ritual de passagem, do objecto que passa do pai para o filho. Era um sonho de infância, de quando brincava aos escritórios com as minhas irmãs. A brincadeira começava sempre com a ida para o trabalho: sentados numa arca que ainda está no corredor, entrávamos no carro e conduzíamos. Imitávamos o som das portas e do motor. Muitas vezes a brincadeira não passava da viagem, porque o emocionante era conduzir, não era o escritório. O carocha condensava a ideia de futuro, de uma idade maior – o mundo dos grandes – e a fantasia de um brinquedo gigante. Redondo, bonito e brilhante, o carocha ainda parece um carro de brincar.

Acordei num sábado de 1995 e o meu pai dormia no sofá, encolhido como um bicho assustado. A 200 metros de casa, o carocha estava encavalitado num muro gradeado que separava a estrada cá em cima das linhas de comboio muitos metros mais abaixo. Saí de casa para esperar a chegada do reboque e levei a Nikon. O meu carro estava morto. Fotografei-o, entrei e esvaziei o guarda-luvas. Disse adeus àquele cheiro, ao banco de trás onde viajei e andei à bulha com as minhas irmãs, ao meu lugar que era o do meio, e fui para casa ralhar com o meu pai. Disse-lhe: não achas que eu é que estou na idade de espatifar carros?

. 9 .

No dia 24 de Junho de 1983 eu saí de casa sem calças.
Era o aniversário de um primo, numa daquelas tardes em que depois do duche já começas a transpirar. Vesti-me para ir à festa: uma t-shirt que ficava grande demais, chegava a meio das coxas. Dizia Hasselblad no peito e nas costas, e na manga esquerda, o desenho de uma máquina fotográfica. Bonita e elegante, do lettering ao desenho da máquina, aquela t-shirt era especial. E a cor. Aquela cor. Nunca a vestira antes por ser tão grande. Olhei-me no espelho e decidi: é hoje.
Usei-a como um vestido de Verão, com um cinto a rematar. Uma t-shirt azul-céu intenso e um cinto fininho de verniz vermelho.
Saí para a rua e apanhei um táxi. Sentei-me no banco de trás com a sensação que tinha vestido uma personagem que também era eu. Não o fiz a pensar que estava a vestir-me como uma rapariga. Fi-lo porque que estava a combinar 2 elementos de uma maneira diferente do que costumava fazer e porque achava que ficava estupidamente bem assim.
Já em frente ao prédio onde viviam os meus primos, pensei: é agora. E entrei.
Dos amigos do meu primo vieram alguns olhares a estranhar o que eu trazia vestido, mas rapidamente me fundi na brincadeira e, para mim, a festa estava começada.
Anos mais tarde comecei a inventar mais. Roupa do avesso, a minha colecção de camisas brancas rasgadas que tanto afligia a minha mãe – Oh filho, não tinhas mais nada para vestir? – as camisolas de pijama, as penas nos sapatos. Mais tarde, as saias e a colecção de casacos, as jóias e a maquilhagem, os acessórios, os coletes e lenços. Tudo servia para me recriar, mas o primeiro cross-dressing foi quando ainda tinha um só dígito – 9.
A fauna da Lisboa por onde eu me movia e entre as pessoas da minha idade, não era assim tão variada. A diferença era apontada com desdém e agrados vindos das obras, ou mesmo a ocasional cuspidela vinda de um autocarro que passava. Não era um ambiente pacífico, mas eu saía de casa reinventado e fazia-me. A cada vez o meu universo expandia, sem medo e sem vergonha, a tentar perceber se havia um limite, uma fronteira. E não havia, porque eu olhava para mais longe. Pelo meio, o Bowie e as fotografias nas capas dos discos, as letras das músicas que me apresentavam o grande camaleão, um homem que se reinventava à medida que avançava. Aquilo cantava o que eu era aos 16 anos.
Ainda guardo o osso com que prendia o moicano azul que usava atado num puxo no topo da cabeça. Não me esqueço da noite em que apanhei o 42 à porta de casa, a cara incrédula dos passageiros quando avancei pelo corredor para me sentar lá atrás. Comentavam baixinho, apontavam com o queixo. Quando me levantei para sair, aquela meia dúzia de pessoas tinha o riso preso. Olhei para todos e sorri. Eles estalaram a rir e eu ri com eles. Riam por achar ridículo ou surpreendente, mas para mim foi uma estranha comunhão. Aquele riso afirmava-me como parte da cidade. O riso partilhado que, muitas vezes, é o início de algo maior.
O prazer de me identificar com o que visto cresceu comigo e faço-o todos os dias. Deixou de ser uma projecção do que eu queria ser para reflectir quem sou. Deixei para trás a provocação e o confronto e abracei a subtileza dos detalhes. Um amigo riu quando lhe disse que sou discreto a vestir-me. Respondi-lhe que já fui bem mais exuberante. Depois contei-lhe da t-shirt azul e do cinto vermelho.

hasselblad

. Nikon F .

Com 20 anos, fui de férias com amigos e levei a minha máquina fotográfica – uma mítica Nikon F, linda e bruta, pesadíssima. Naquelas 2 semanas acampámos perto do mar e eu levei a Nikon comigo para todo o lado. Tirei uma única fotografia, a caminho da praia, no banco de trás do carro. Ao revelar o rolo em casa, puxei a ponta do filme mais do que devia e queimei dois terços do fotograma. No canto da imagem, apenas as duas pessoas que fotografei e parte de uma garrafa de água que um deles bebia. Foi o suficiente.
Quando o meu pai morreu, tive medo de me esquecer da voz dele. Durante meses ouvi-o na minha cabeça, a dizer o meu nome ou qualquer outra coisa que me ajudasse a sentir que não o estava a perder. Lembrei-me do video caseiro de quando ele fez 50 anos – ali eu poderia voltar a ouvi-lo. Mas a câmera não era nossa e a cassete, se ainda existisse, estaria perdida numa caixa ou numa gaveta, algures em casa de alguém. Deixei estar.
Quando mais tarde comecei a dançar, parei de fotografar. Deixei de querer fixar imagens em sais de prata e aprendi a perceber o meu corpo. Aprendi que a minha memória me serve. Lembro-me.
Posso gravar uma voz, fotografar uma cara, mas nada conta melhor a minha história que o álbum que trago comigo. Cheiro o pescoço de quem gosto, aprisiono partículas de cada pessoa. Faço um álbum de família e de amores, de tudo o que me faz chegar a casa. As minhas pessoas são minhas e esse saber cabe no bolso da minha camisa. As músicas e os cheiros trazem tudo de volta. A memória está toda no corpo e basta-me. Escrever é compor cadeiras de flores.
Na primeira noite daquelas férias, largámos a correr pinhal adentro, uma ladeira íngreme que se desenhava a safanões de lanterna.
O chão e os arbustos não tinham cor. O pinhal passava por mim, destemido, ileso.
O nosso riso apontava o caminho. Atrás de nós, escuro. À nossa frente, o escuro. Entrámos vida adentro, a correr. Devia ser sempre assim – ir a correr sem ter medo de não ver.
Eu ainda estou a correr naquele pinhal, sem saber onde piso, a confiar no riso partilhado – ponto a ponto, passo a passo.
Aquela corrida é a única fotografia, é o som da minha voz, são todas as palavras.
Ainda está a acontecer.

2013 11 27 Nikon F

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