. pálido azul .

by Os dias do meio

Somos um pálido ponto azul, não é? Já lá vamos.
Quando os anos cabiam em duas mãos e a televisão era finalmente a cores, as missões espaciais eram momentos de excitação. Ali estava um foguetão enorme e a expectativa dos lançamentos e aterragens do Vaivém espacial. O auge da tecnologia, a derradeira fronteira, a grande evasão. O Vaivém era a nave que viajava no Espaço e aterrava na Terra, coberto por placas de cerâmica que suportavam as altas temperaturas da fricção provocada pela reentrada na atmosfera… eu quase parava de respirar. Numa aterragem assistida em direto, mal o Vaivém tocou no chão eu cortei o silêncio da sala e disse: fantástico! Segundos depois, o locutor repete: fantástico! E era.
As viagens espaciais eram o expoente máximo do sonho. Há fascínio maior do que a terra vista lá de cima onde as planícies não têm fim? Do que ver o pontinho azul que a Voyager 1 nos mostrou ou saber que aquela sonda irá viajar até aos limites do nosso sistema, enviar-nos fotografias de planetas tremendamente distantes e continuar a explorar o espaço até perder a autonomia? Naquela altura, com os anos contados na segunda mão, essa longevidade não era palpável. Trinta e nove anos depois do lançamento das Voyager, ainda não é. Elas continuam a sua missão e já se encontram fora do sistema solar, no espaço interestelar. Estima-se que até 2025/30 irão continuar a enviar leituras, altura em que deixarão de ter energia para acionar os seus instrumentos. Mas não vão deixar de viajar pelo espaço a uma velocidade incrível, levando consigo os míticos discos dourados com sons e imagens da Terra – tudo com tecnologia dos meados dos anos 70 e uma capacidade de memória ridícula para os dias de hoje. fantástico .
A exploração espacial e o Cosmos do Carl Sagan andavam de mãos dadas com a fantasia do Star Wars, a distopia Cylónica da Galáctica e as orelhas bicudas do Mr. Spock. O meu kispo vermelho era um fato espacial alienígena, eu viajava na Millennium Falcon, ouvia a voz do R2 na bomba de ar da minha bicicleta e queria visitar o covil do Jabba. Fascinava com as naves do Space 1999 – as Eagles – e até via o Buck Rogers (péssimo, eu sei), mas o regresso a casa era sempre no Space Shuttle, o nosso Vaivém. Era lindo, era branco e era real.
Um dia, e depois de adiamentos sucessivos devido ao mau tempo, vimos o impensável: o Challenger explodiu durante o lançamento com 7 astronautas a bordo. O desastre tornou-se maior pela presença da professora que ia dar uma aula a partir do espaço para as crianças na Terra. Parou tudo.
O acesso ao Espaço não eram favas contadas.
Durante 3 anos a NASA suspendeu as missões e o Hubble teve de esperar por 1990. Depois de lançado, descobriu-se que era míope devido a um defeito num espelho – o Hubble precisava de óculos. Corrigido o erro, chegaram-nos imagens magníficas da formação de estrelas.
Trinta anos depois do Challenger, quase quarenta anos desde o lançamento das manas Voyager e do lançamento do Star Wars, voltamos a olhar para cima. Em 2013, o astronauta Chris Hadfield cantou o Space Oddity na Estação Espacial Internacional, dando-lhe o cenário mais que perfeito. Em 2015, a NASA lança o conteúdos dos discos dourados no SoundCloud e voltámos a voar a bordo da Millennium Falcon. Em 2016, o mundo estremeceu com a partida do homem que caiu na Terra, o homem das estrelas que nos arrebatou a mente porque sabia que valia a pena. Olhamos para cima para confirmar que foi bom perdermo-nos e usarmo-nos de tudo o que nos trouxe, que só nos resta dançar no pálido ponto azul onde tudo acontece – azul como o olho desse homem. 
E disse o Sagan: Consideremos de novo esse ponto. É aqui, é a nossa casa, somos nós.

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