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by Os dias do meio

 

Canto o meu corpo sozinho ao sol. É o que isto é, um momento sozinho.
Canto o chão bruto e inexorável do caminho até chegar a casa. Canto o barco para a outra margem, as linhas do comboio. Canto o terreno dos feitiços e a sombra que espera sempre por si, a árvore da salvação, a pedra da rolha. Canto a água da chuva na cisterna e a arruda na última curva. Canto as boas noites, as bocas de lobo, canto o sol que almareia. Canto as figueiras e farrobeiras, canto a água da fonte no garrafão, os limões do Florêncio, o pão dos Madeirinhas. Canto as pinhas da venda da Olímpia, canto o miso e o mingau. Canto as horas todas, canto uma história, canto o inverno e o verão. Danço o nosso ontem, levo tudo à frente, urgente. Danço para não me esquecer da vontade de ter vontade, urgente.

♦  E se bem te lembras quando andávamos os dois a deambular por aí sem procurar nada, tantas coisas nos aconteciam e tudo corria como um rio   ♦

Agora fica tudo mais quieto, o silêncio. Fica o som dos meus pés no chão da cozinha, a ladainha do pequeno almoço enquanto mastigo, o zumbido agudo e sempre presente nos ouvidos, o silêncio. Apenas a quietude imensa, surda, uma imobilidade generosa e febril, sem distração. Esta cartografia tem um vazio, todo ele presença irascível, anarca-genética e inteira. Uma força imensa, destravada, incondicional e sem critério – como uma fé. Que seria de mim sem a parte que vem dela, neste momento onde tudo cabe, que tudo consome e nunca se esgota – nesta pena resoluta, nesta singularidade absoluta.

 

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