. Veronica .

by Os dias do meio

Ela está a olhar para mim e dói-me o ombro. Vejo pela janela uma árvore do outro lado do pátio. Sinto um dos braços adormecer e penso no que não devo. Respiro fundo e estou de volta à pequena sala com vista para o mar. Redistribuo o meu peso e descontraio o centro de gravidade. Ninguém se apercebe e as minhas pernas estão firmes – aguentam mais 15 minutos. Procuro outro foco – estão todos a olhar para mim. Atrás de mim uma janela e a Serra. Em frente à janela estou eu. Aos meus pés, o sol desenha uma coluna de luz e sombra que vejo transformar-se. Estão todos a olhar para mim. A sala está quente. Junto ao chão, uma fina camada de ar frio que só eu sinto. Estou nu e oiço o tronco ardido e preguiçoso resvalar sobre as cinzas na salamandra. Penso no tempo que não passa. Penso nas outras vezes em que pensei no tempo que não passava. O frio, as dores, o tédio e as vezes que foram tão boas que me libertaram e me fizeram avançar sem sair do lugar. A sala electrizada e aquilo a acontecer. Então pensei na Veronica. Ela estava a olhar para mim e eu estava mais exposto que nunca – o que ela via os outros não viam. O que eu fazia era só para ela. Ela estava deitada no chão, a desenhar-me num lençol de papel e não me largava. Aos olhos dela, todo eu sou forte e frágil como na vida real. Ela vê-me. Uma vez encontrei-a na rua e pedi-lhe que me desse um desenho. Ela tímida, deu-me o número do telefone e eu não liguei, deixei passar, com a certeza que a voltaria a ver. Deixei passar muitas vezes. Uns anos mais tarde, uma rapariga reconheceu-me num bar e falou daquelas vezes em que a sala ficou eléctrica – como aquilo nos tinha marcado a todos. Perguntei-lhe pela Veronica, disse-lhe que desde então as minhas poses são para ela. Ela fechou a cara com ternura. A Veronica não aguentou mais e matou-se. Eu sou daqueles que chora quando a Veronica morre.

(4 Março 2013)

2013 03 04 - Veronica

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