. A vizinha .

by Os dias do meio

A vizinha de cima é uma velha senhora.
A vizinha de cima é uma senhora velha.
Veio do campo para a cidade, teve filhos e teve netos. Passa muito tempo à janela. Pode ser vista logo pelas 7h da manhã. Vai falando com quem passa e conhece, atira pão seco aos pombos.
Tem sempre um lenço na cabeça e cáries nos dentes.
Durante anos teve plantas na varanda, que regava e adubava com espinhas de bacalhau, como fazia na horta lá na terra.
A vizinha de cima vive um bocadinho alheada.
A vizinha de cima cheira mal. A casa da vizinha cheira mal, e no Verão, as escadas do prédio cheiram mal por causa da casa da vizinha.
Já discuti com ela várias vezes por causa do pão que atira aos pombos e os atrai para a minha janela, por causa das espinhas de bacalhau e ossos de frango que aparecem na minha varanda.
Um dia perdi as estribeiras e gritei com ela. Disse-lhe o que toda a gente pensa mas ninguém diz: a vizinha é porca e cheira mal. Ainda assim, a vizinha tem saudades minhas quando eu não estou. Ela gosta de me ver regar as plantas. A varanda da vizinha já não tem plantas. A vizinha ainda atira pão aos pombos, mas agora com mais cuidado.Todos os meses a família reúne em casa da vizinha para jantar. Falam alto como fazem as famílias e festejam aniversários. Descem as escadas em conversa animada à 1h da manhã, como se fosse cedo. Saem felizes. Sempre me surpreendeu como eles aguentam estar ali tantas horas, com aquele cheiro. E jantam. Mas estão e voltam.
A família da velha senhora que cheira mal e vive no andar de cima, gosta muito da sua avó. E eu gosto disso. Se ela não cheirasse tão mal eu adoptava-a, como fiz com o Sr. Ventura, que vivia no rés-do-chão do 25. Ele passava horas a apanhar o sol de Inverno junto à minha mota e conversávamos todos os dias. Um dia deixámos de o ver. Adoeceu e começou a sair muito pouco. Quando apareceu estava mais magro e frágil. Depois nunca mais.

O estendal das traseiras da vizinha tem uma saia que vive lá.
Quando me mudei para esta casa, a saia já lá estava, velha e puída. Esfarrapada como a vela de um navio fantasma, cortina em casa abandonada, queimada pelo tempo. A saia da vizinha mora ali há mais de 8 anos. Eu tenho para mim que o plástico que está debaixo da saia é o saco onde ela guarda o ouro quando sai de casa – um truque antigo para despistar piratas.
A saia da vizinha tornou-se uma lenda, uma história para contar. Todos olham para cima e estremecem ao vê-la, imponente e ameaçadora como a vela de um galeão pirata, navegando amaldiçoada no estendal das traseiras.

Ontem olhei para cima e vi a saia. E tive vontade de perguntar à vizinha porque é que ela a tem ali pendurada há tantos anos. Hoje ao estender a roupa, vejo a saia da vizinha caída no estendal do andar abaixo do meu. Estremeci.

Temo pela vida da minha vizinha.

(26 Julho 2013)

2013 07 26 - A Vizinha
Anúncios