. Ipanema .

by Os dias do meio

Molho o pé em Ipanema. A água está surpreendentemente boa e fico cheio de inveja dos meninos que brincam com água pelo joelho. Olho em volta e escolho um grupo de gente simpática. Peço-lhes para olharem pelas minhas coisas enquanto entro no mar – “Claro! bota aí mais junto das nossas coisas”.
Mochila, computador e outras tecnologias perdem importância quando entro no mar. Tenho o Morro Dois Irmãos à minha esquerda, o Corcovado à minha frente no enfiamento entre dois prédios e Ipanema num sábado ao fim da tarde, cheia e dengosa. Enquanto me seco o Jorge pergunta-me de onde sou e conta-me da sua avó que era portuguesa. Os miúdos trazem conchas e pedras que juntam na toalha e logo são esquecidas com o aproximar do vendedor de gelados. A avó do Jorge veio para o Brasil de barco – como o meu pai, respondi-lhe. Trocámos histórias. Vesti-me. Uma amiga do Jorge pergunta-me de onde sou e conta-me que está tentar ir a Portugal no ano que vem. Ela é contadora de histórias e quer ir a um festival em Coimbra, onde estive mesmo antes de vir para o Rio.
Sigo pelo calçadão da Vieira Souto. Skaters, bicicletas e patins. Homens musculados, raparigas gordas de skate, rapazes atrelados na bicicleta da amiga. As mães regam os pés dos filhos e a areia fica ali. Os quiosques têm as esplanadas cheias de gente a beber cerveja. Aqui comem-se as melhores pipocas do mundo e eu não me esquivo.
2 violões e uma voz cantam: “Estranho seria se eu não me apaixonasse por você…” – Parei para ouvir a sorrir, de pipocas na mão enquanto o sol se escondia atrás dos Dois Irmãos. Quis que a minha irmã Alessandra estivesse ali comigo, com o Eduardo no colo. Cantei em coro o resto da canção. Aquilo emocionou-me e sinto vontade de chorar. Uma vontade boa, feliz e triste. Porque me sinto feliz, porque a minha irmã não está ali comigo, porque ainda não tenho o teu endereço, porque há música que vive debaixo da minha pele, que emerge e me inunda e me leva e me tem.
Disse-o ao taxista e disse-o ao Jorge: as minhas raízes também estão aqui. O meu pai encontrou Lisboa a caminho do Brasil. Eu encontro aqui o prólogo da minha história e isso emociona-me. Quero continuar aquela conversa que não terminámos ontem. Ficou pra hoje.

(29 Outubro 2012)

2012 10 29 - Ipanema

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